"> Cracolândia: Origem, duração e ação pública que levou ao fim da cena aberta no centro paulistano

 

Politica - 10/08/2026 - 08:30:39

 

Cracolândia: Origem, duração e ação pública que levou ao fim da cena aberta no centro paulistano

 

Da Redação .

Foto(s): Arte @HORA

 

Três décadas de concentração de consumo e tráfico de drogas seguidas de estratégia integrada que transformou a região central da capital. Orlando Morando foi secretário de segurança urbana da  capital.

Três décadas de concentração de consumo e tráfico de drogas seguidas de estratégia integrada que transformou a região central da capital. Orlando Morando foi secretário de segurança urbana da capital.

Surgimento e consolidação

A Cracolândia se consolidou na região central de São Paulo nos bairros da Luz Campos Elíseos e adjacências a partir do início da década de 1990. Nesse período exerceram o cargo de prefeito da cidade Luiza Erundina no período de 1989 a 1992 Paulo Maluf no período de 1993 a 1996 seguido por Celso Pitta no período de 1997 a 2000 no final da década. O processo teve como antecedente a desativação do antigo Terminal Rodoviário da Luz nos anos 1980 após a inauguração do Terminal Rodoviário do Tietê que causou esvaziamento comercial e abandono de edifícios redução imobiliária e ausência de políticas estruturantes. Somou-se a esse cenário a chegada do crack droga de baixo custo e efeito rápido a desativação gradual do Hospital Psiquiátrico do Juquery e a migração de usuários expulsos de áreas periféricas por conflitos violentos além de pontos históricos de venda de substâncias ilícitas na região da Luz. A área passou a reunir usuários em situação de vulnerabilidade social moradores de rua e grupos de tráfico organizado formando o espaço conhecido como Cracolândia. Dois programas receberam popularmente a denominação de Bolsa Crack ao longo dos anos. O primeiro denominado Cartão Recomeço foi lançado em maio de 2013 pelo governo estadual de São Paulo durante a gestão do governador Geraldo Alckmin como benefício voltado a famílias para custeio de internação em clínicas credenciadas. O segundo denominado De Braços Abertos foi lançado em janeiro de 2014 pela Prefeitura de São Paulo durante a gestão do prefeito Fernando Haddad com oferta de assistência moradia refeições e pequena remuneração por serviços de limpeza urbana baseado na redução de danos.

Período de duração

Formada no início dos anos 1990 a cena aberta de consumo e venda de drogas permaneceu por aproximadamente 30 anos com deslocamentos constantes entre ruas Helvétia Dino Bueno Alameda Cleveland Praça Princesa Isabel e Rua dos Protestantes até o esvaziamento definitivo registrado em maio de 2025.

Ações governamentais após 2023

O Governo do Estado de São Paulo e a Prefeitura de São Paulo implementaram de forma articulada medidas que uniram repressão ao tráfico organizado ampliação de serviços de saúde especializados acolhimento social e requalificação urbana. Foi criado o Hub de Cuidados em Crack e Outras Drogas responsável por milhares de encaminhamentos para internação e tratamento ampliou se o número de leitos hospitalares específicos e implantaram se complexos de casas terapêuticas e unidades de apoio social. Operações de polícia militar e civil focaram na prisão de lideranças do tráfico e na desarticulação das redes de abastecimento com apoio do sistema de monitoramento Smart Sampa. Esse sistema foi formalizado pelo Decreto número 63.552 de 4 de julho de 2024 assinado pelo prefeito Ricardo Nunes com inauguração da central de monitoramento em julho de 2024 e lançamento oficial registrado em 21 de novembro de 2024. A prefeitura participou com ações de zeladoria urbana apoio aos atendimentos e projetos habitacionais e de revitalização dos espaços públicos. Leonardo Monteiro Moja conhecido como Leo do Moinho apontado como principal liderança do PCC na Favela do Moinho e responsável pela estrutura de abastecimento de drogas que alimentava a Cracolândia foi preso no dia 6 de agosto de 2024 durante a Operação Salus et Dignitas coordenada pelo Gaeco e polícias estaduais. Ele era apontado como gestor do núcleo de comando do crime organizado instalado na comunidade com controle de estoque de drogas rede de comunicação e vigilância e coordenação da distribuição para os pontos de venda aberta no centro. Essa prisão foi um passo central para romper a cadeia logística que sustentava a concentração de usuários e violência na região.

Responsáveis diretos pelas políticas

No âmbito estadual o governador Tarcísio de Freitas e o vice governador Felício Ramuth que coordenou o conjunto de ações integradas foram as lideranças centrais da estratégia implementada desde o início da gestão estadual. No poder municipal o prefeito Ricardo Nunes conduziu as ações complementares de assistência habitação e intervenção urbana em parceria com o estado. À frente da Secretaria Municipal de Segurança Urbana e como um dos coordenadores operacionais que aplicou o Smart Sampa nas ações de combate ao tráfico e monitoramento da região esteve Orlando Morando Junior, ex-prefeito de São Bernardo do Campo, responsável pela gestão do programa entre 2025 e 2026 contribuindo para a identificação de suspeitos e suporte às intervenções policiais na área da Cracolândia.

Transformações com o fim da Favela do Moinho e mudanças no centro

A Favela do Moinho ocupava posição estratégica entre a linha férrea e avenidas principais do centro funcionando como quartel general do PCC ponto de armazenamento central de drogas centro de comando e monitoramento das ações policiais e base de organização da violência e extorsão que permeava a Cracolândia. Por controlar essa área central as organizações criminosas mantinham domínio sobre fluxos de circulação de pessoas e mercadorias ilícitas dificultando a presença regular do poder público e a recuperação de espaços públicos e comerciais. O projeto de reassentamento das famílias residentes iniciado em abril de 2025 com mais de 900 famílias transferidas para moradias dignas e índice de desocupação superior a 96 por cento até meados de 2026 retirou a estrutura física e territorial que sustentava o abastecimento contínuo de drogas e a dominação criminosa da região. O terreno foi destinado à construção de parque público após acordo entre governos federal e estadual. Com essas intervenções registrou se redução nos índices de roubos e violência na região retomada do fluxo de circulação de pessoas recuperação de espaços públicos e retomada gradual de atividades comerciais e culturais nos bairros centrais. A recuperação desse território permitiu ampliar a presença de serviços públicos e segurança integrada reduzindo o isolamento da área central e facilitando a conexão entre bairros e equipamentos urbanos próximos.

Pareceres e análises de especialistas

Há visões divergentes entre pesquisadores e profissionais da área. Alguns profissionais da saúde e assistência social apontam como avanço a integração entre segurança e atendimento terapêutico diferenciando o tratamento do usuário da repressão ao traficante embora alertuem para a necessidade de continuidade dos serviços de acompanhamento psicológico inserção profissional e moradia evitando retorno à vulnerabilidade. Acadêmicos e movimentos ligados à redução de danos destacam riscos de intervenções excessivamente policiais defendendo políticas permanentes de moradia digna e saúde mental como base sustentável e questionam se a ausência de concentração visível elimina o consumo ou apenas dispersa os grupos para regiões menores e menos monitoradas.

Posições dos políticos responsáveis

Tarcísio de Freitas declarou que o resultado decorreu de trabalho coordenado entre segurança saúde e assistência com objetivo de devolver o centro da cidade à população rejeitando a ideia de ação apenas repressiva. Felício Ramuth sustenta que a estrutura de sustentação do fluxo foi desmontada separando usuários de organizações criminosas e afirma que a cena aberta não retornará embora reconheça que o consumo de drogas persista como desafio de saúde pública. Ricardo Nunes destacou a importância da requalificação urbana das moradias entregues e da tecnologia do Smart Sampa como parte do processo de recuperação da região central. Orlando Morando Junior ressaltou a capacidade do sistema de monitoramento de localizar grupos criminosos e dar agilidade às intervenções da Guarda Civil Metropolitana reforçando o papel da integração tecnológica nas ações de recuperação do espaço público. Outros nomes da política como Fernando Haddad defendem modelos anteriores centrados na redução de danos e questionam o caráter definitivo do fim da Cracolândia apontando risco de deslocamento de usuários para outras áreas da cidade.

(*) Com informações das fontes: Diário Oficial do Município de São Paulo relatórios da Câmara Municipal de São Paulo agências de notícias oficiais do Governo de São Paulo e da Prefeitura de São Paulo reportagens de veículos de comunicação locais e nacionais artigos acadêmicos e declarações públicas de autoridades envolvidas nas ações.

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